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Encerro, pelo menos por enquanto, a seção (foi uma sessão também) de fotografia aqui no blog. Segue então um artiguinho sobre o livro homônimo ao título do post. A foto, meramente ilustrativa e itencionalmente abstrata, é de Bruno Schmidt Marques, levemente editada.

A fotografia exerce certo fascínio sobre todos nós. Em determinadas pessoas, no entanto, ela atiça uma curiosidade particular, crescente e contínua, mesmo que não apareça como uma constante na vida profissional. É o caso, por exemplo, de Susan Sontag. A escritora norte-americana de variados estilos, meios e formatos publicou, em 1977, Sobre Fotografia, livro onde, segundo ela mesma, tenta solucionar “alguns dos problemas, estéticos e morais, propostos pela onipresença das imagens fotográficas”. De fato, a obra retrata uma busca insaciável por um conceito de fotografia. Não no sentido técnico, e nem do ponto de vista comunicacional mais direto, mas sim sob uma ótica sócio-antropológica.
O livro de Sontag reúne seis artigos, que, pelo menos supostamente, abordam de maneiras distintas o tema central proposto. Entretanto, ao estudar os ensaios logo é possível perceber que, no fundo, a autora possui sempre o mesmo argumento ou, pelo menos, vários bem parecidos. Ela explica que a fotografia, em semelhança ao medo existente na época do seu surgimento, apropria-se de certa forma da coisa fotografada, já que passa a ser uma representação material daquilo. Fala também da potencialidade narrativa da fotografia, como nos álbuns de família. O conjunto conta uma história, pois cada foto capturou um instante da vida daquelas pessoas: “Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-la, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo”.
Sontag argumenta que, sob outras circunstâncias, esse frame capturado pode servir como arma – violações, invasões de privacidade ou imagens marcantes que, congeladas em fotografias, chocam mais do que em movimento – ou então como escudo. Atrocidades podem ser fotografadas como forma de distanciamento do fato – a pessoa com a câmera em mãos clica para registrar o momento em sua memória fotográfica e livrar a mente daquela imagem. Caso semelhante, diz a autora, ao dos turistas, que fotografam tudo que vêem pela frente em uma tentativa desesperada de armazenar suas viagens. Depois, em casa, ao analisar as fotos é que eles vão de fato descobrir o ambiente no qual estiveram. Isso corrobora com a tese de que, hoje, a representação do real causa menos estranheza do que a própria realidade. Sontag ilustra com o exemplo da pessoa que, para explicar o quão real foi o fato que presenciou, o define como “coisa de cinema”. Qualificação que no início do século passado, por exemplo, ganharia sentido contrário ao atual.
De diversas maneiras a autora tenta explicitar esse seu conceito de fotografia enquanto captura do real. Propositalmente ou não, cria um discurso em looping. Não importa qual seja o assunto do ensaio, uma análise da cultura fotográfica estado-unidense ou um estudo teórico sobre o mundo-imagem, o conceito de Sontag está sempre presente. Mesma essência com rótulos diferentes.
A repetição, nesse caso, prejudica pela redundância, mas ganha pela fixação do conteúdo. A maior questão, então, fica por conta da defasagem temporal e tecnológica entre o livro, escrito no analógico e distante ano de 1977, e a realidade em que vivemos. Susan Sontag morreu em 2004, no começo do grande boom da fotografia digital que assolou o mundo. Não chegou a presenciar a “revolução” que traria novos ares a algumas de suas idéias. Ela dizia que “a força das imagens fotográficas provém de serem elas realidades materiais por si mesmas, depósitos fartamente informativos deixados no rastro do que quer que as tenha emitido, meios poderosos de tomar o lugar da realidade – ao transformar a realidade numa sombra”. Oras, são raras as imagens atuais de fato materiais. E mesmo as impressas provavelmente já sofreram algum processo de manipulação digital. Assim, não estariam as fotografias ainda capturando o real, mas perdendo a capacidade, e a credibilidade, de reproduzi-lo fielmente? A exemplo dos trabalhos mais recentes de Annie Leibovitz (que, coincidentemente, foi companheira de Sontag por muitos anos), a fotografia intensamente manipulada está mais próxima da pintura do que da arte fotográfica propriamente dita. Ironicamente, a fotografia parece estar caminhando para uma estética pré-fotográfica.
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Tempo de vacas magras, eu sei. Abaixo, video que talvez possa interessar.
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A proposta deste blog é falar de cinema. E mesmo que isto aqui esteja meio jogado às traças, pretendo manter a linha editorial. Hoje, entretanto, na primeira atualização em meses, o assunto é outro. Uma homenagem ao Dia Mundial da Fotografia, comemorado ontem, 19 de agosto. Publico então um mini-artigo/biografia sobre Robert Frank, escrito em colaboração com minhas colegas Carine Wallauer, Roberta Roth e Simone Bertuzzi para a disciplina de Fotojornalismo, e algumas fotos do principal trabalho de Frank, o livro The Americans.

Pessoas e objetos rotineiros. Sujeitos presentes em toda parte, que passam despercebidos, sobre os quais não refletimos. Esse, pode-se dizer, foi o mote, a característica marcante das fotografias do suíço Robert Frank, um dos mais norte-americanos fotógrafos do século XX. Nascido em 1924, em Zurique, Frank teve lá seu primeiro contato com a fotografia, inspirado pelos periódicos ilustrados da Europa da década de 1930.
Robert Frank, no entanto, nunca se preocupou em retratar o próprio país ou seu desolado continente pós-guerra. No final da década de 1940 viajou pela América do Sul e logo em seguida foi procurar trabalho nos Estados Unidos, dita terra da liberdade. Em Nova York foi apadrinhado por diversos fotógrafos locais. Trabalhou com moda por algum tempo, mas, apesar de compensatória, a fotografia de moda era segura. E o excesso de segurança, ou a falta do risco, havia sido um dos motivos pelos quais Frank havia deixado a Suíça. Segundo ele mesmo, o que mais o atraía nos Estados Unidos antes de chegar lá eram os banheiros e as geladeiras. No entanto, a primeira coisa que o impressionou quando desceu do avião foi uma auto-estrada repleta de carros. O símbolo de liberdade de um país onde, com um automóvel, se pode ir do Atlântico ao Pacífico. Foi o que ele fez.

Bolsista da Fundação Guggenheim, Frank cruzou a “América” entre 1955 e 1956, fotografando uma face mais sombria e realista do país que propagava aos quatro cantos do mundo a perfeição cinematográfica de Hollywood. Muito comparado a On the Road, livro de Jack Kerouac também fruto de uma viagem rodoviária pelos Estados Unidos, o projeto de Robert Frank surgiu como uma forma de elucidar o povo americano sobre ele mesmo, tentar trazer um reflexo àquele país de dimensões continentais.
À medida que Frank viajava de Chicago a São Francisco, de Houston a Nova York, o futuro livro tomava forma e se tornava mais focado. O fotógrafo passou a se tornar atraído não simplesmente por objetos e personagens concretos (bandeiras, cowboys, motociclistas, jukeboxes…), mas pelo sentimento que esses transmitiam. O que o atraía em hotéis era a solidão, a melancolia das luzes noturnas, o isolamento das pessoas sentadas em paradas de ônibus. Suas fotos, embora muitas vezes passem a idéia de movimento, são imagens estáticas, congeladas, de personagens imóveis. Recurso, segundo Frank, essencial para uma boa fotografia: “A foto é tanto mais interessante quando nos faz pensar no que aconteceu antes e no que acontecerá depois – a imagem fixa permanecendo no meio”. Raramente conversava com as pessoas que fotografava. O objeto não era o que mais importava pra ele, mas o que se podia sentir sobre e através dele.
Ao final de sua viagem de quase dois anos Robert Frank possuía cerca de 28000 negativos. Desses, publicou 83 em seu livro, intitulado simplesmente The Americans. Editado pelo fotógrafo francês Robert Delpire, com textos de Alain Bosquet e prefácio de Jack Kerouac, o livro foi lançado na Europa em 1958. Um ano mais tarde, quando chegou aos Estados Unidos, The Americans desagradou aos próprios intitulados, os americanos, que se viram muito menos glamorosos do que julgavam ser. Frank chegou a ser considerado como mais um estrangeiro empenhado em destruir a imagem da “América”. Foi comparado a Walker Evans, americano nato que fotografara na década de 30 projeto semelhante, mas a serviço do governo, através da Farm Security Administration. Evans dignificara a miséria estado-unidense, e Frank, apesar de fascinado pelo país, desmontou tudo. Hoje, nos Estados Unidos e em qualquer lugar, The Americans é considerado um marco na história da fotografia.

Publicado o livro, Robert Frank não realizou mais nenhum trabalho fotográfico inédito de complexidade ou relevância semelhante. Tornou-se um artista de vanguarda, conceitual. Com o passar do tempo sua obra se tornou mais flexível, informal, e muito ligada à idéia de movimento. Realizou composições de forma dinâmica, desequilibradas, fora de ordem, instáveis, fora de foco, muito claras ou muito escuras. Por vezes, parecendo que nem sequer olhava através do visor ou verificava os controles da câmara. No entanto, Frank havia aprendido o suficiente sobre a relação entre tons e escalas para provocar a sensação de peso ou leveza que desejava. Sabia que as sombras ou os desfoques deveriam ser legíveis, ou até mesmo abstratos, mas ainda assim expressivos e instigantes. Percebeu também, cada vez mais profundamente, que seu estilo anterior, refinado, lírico, era grosseiramente incapaz de transmitir a dureza da vida que encontrou, bem como a multiplicidade de incertezas de seus próprios sentimentos e experiências.

A partir de 1959 Robert Frank passou a se dedicar ao cinema. Seu primeiro filme, Pull My Daisy, teve Jack Kerouac como narrador e seguiu os passos da recém-formada geração beat, composta principalmente por artistas libertários, hedonistas e, de certa forma, espiritualizados. De 1959 até 2000, ano de lançamento de seu último filme, Frank realizou 21 projetos cinematográficos. Curiosamente, só ocupou a posição de diretor de fotografia em três deles.
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Toda vez que é lançado um novo filme baseado em livros, quadrinhos ou séries antigas – o que, nos últimos anos, tem acontecido mais ou menos de mês em mês – surge o dilema: como agradar aos fãs e, ao mesmo tempo, se fazer compreensível ao grande público? Não posso responder pelo primeiro grupo, mas, para mim, um iniciante em jornadas estelares, Star Trek (EUA/ Alemanha, 2009) superou as expectativas.
O longa se baseia na primeira versão do seriado Jornada nas Estrelas, produzido entre 1966 e 1969 nos Estados Unidos, que acompanhava as aventuras interplanetárias da nave Enterprise, em pleno século XXIII. Com o cancelamento do programa no final da década de 60 e com a legião de fãs ávidos por novas histórias, foram surgindo derivados, com personagens e cronologias bem distantes da série original. Ao todo foram cinco versões televisivas e mais 10 longas feitos para o cinema.
Star Trek, o décimo primeiro filme, narra a viagem inaugural de Enterprise e de seus ainda novatos tripulantes. No enredo, James T. Kirk é um jovem rebelde cujo pai, morto em uma missão, é tido como herói na Frota Estelar. Meio sem rumo na Terra, Kirk aceita ingressar na academia de cadetes da Frota, onde conhece o orelhudo e semi-humano Spock. Três anos mais tarde, em sua primeira viagem, Enterprise tem que enfrentar um grupo de alienígenas vindos do futuro e Kirk se vê obrigado a assumir o comando da nave para salvar o universo.
O roteiro segue bem o modelo hollywoodiano de evolução dramática, cheio dos cronometrados “pontos de tensão”, e se desenrola numa marcha pra lá de acelerada. Nada, no entanto, impossível de se acompanhar. O filme vende muito bem a realidade futurista, fazendo com que nem sequer as passagens mais fantasiosas pareçam inverossímeis.
Clichês também foram superados. Mesmo estando longe de uma originalidade criativa, Star Trek consegue pelo menos contextualizar seus vilões. Ao estilo Blade Runner, aqui eles ultrapassam a típica rasa complexidade dos inimigos e expõem explicações por trás de seus atos. Com algum esforço é até possível extrair algumas questões filosóficas.
Os fãs, entretanto, querem sempre mais do mesmo. Como sou leigo no universo trekker, infelizmente não posso adiantar quais foram as referências que o diretor J. J. Abrams preparou. Mas independentemente das piadinhas internas, Star Trek é um ótimo exemplar de cinema-entretenimento. Um filme que cumpre muito bem a proposta que faz: dar nova vida a uma franquia que ainda tem muitas galáxias a percorrer.

Bem, como dá para ver, o blog hibernou em pleno verão. No post anterior eu disse que ia tentar mantê-lo ativo durante as férias… não deu. Mas agora, com o ano de fato começando, tudo volta ao normal. Para então dar início a 2009 por aqui segue o texto abaixo, sobre o temido Oscar:
. . . . A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é uma grande festa para o cinema dos Estados Unidos. E uma grande ironia também. Criação de um país que se diz defensor da democracia e da liberdade, o Oscar tem um conhecido histórico de injustiças. Está certo que na maioria dos casos os vencedores fazem por merecer, mas não ganham a estatueta dourada exatamente por seus méritos. Ganham devido às grandes campanhas que os estúdios empreendem nos bastidores. Festinhas particulares, presentes para os votantes e por aí vai. Por isso que quase todo ano existe um filme franco favorito ao prêmio: ele não é descaradamente superior aos demais, ele simplesmente fez a melhor campanha.
. . . . E foi isso o que aconteceu em 2009. Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Inglaterra/França, 2008) foi um projeto feito com pouco dinheiro, na raça dos seus realizadores. Os estúdios Fox viram no filme uma luz dourada e resolveram comprar os direitos para a distribuição nos Estados Unidos. Fizeram uma grande campanha na temporada-prêmio seguindo a linha “o patinho feio que virou cisne”. Deu certo. O longa arrecadou 8 Oscars no dia 22 de fevereiro, incluindo o de melhor filme. Infelizmente, poucos deles realmente merecidos. Contando a história de um favelado indiano que inesperadamente chega à pergunta de 20 milhões de rúpias em um programa de TV, Quem quer ser um milionário? é um falso filme diferente. Tem um enredo diferente, uma estética diferente e uma narrativa diferente, mas resulta no mesmo clichê de sempre. No fundo, o filme segue a estrutura dos contos de fadas infantis, substituindo a magia por coincidências do destino.
. . . . Dentre os demais indicados ao Oscar de melhor filme, realmente não se pode dizer que houvesse uma obra-prima. Mas, na minha opinião, pelo menos dois dos concorrentes seriam mais merecedores do grande prêmio. Frost/Nixon (EUA/Inglaterra/França, 2008) acerta em cheio ao mostrar os bastidores da entrevista em que o ex-presidente americano Richard Nixon confessa os crimes cometidos durante seu mandato. As atuações de Frank Langella (deveria ter ganho como melhor ator) e de Michael Sheen, como Nixon e seu entrevistador, respectivamente, são fantásticas. Já O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008) segue uma linha mais clássica: a jornada do personagem ao longo da vida. Apesar de parecer bem original, a saga de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo acaba caindo no lugar comum. A atuação de Brad Pitt também não ajuda, mas o detalhe é que, mesmo com essas falhas, o longa é extremamente bem feito e cumpre fielmente a sua proposta, ser um filme sobre histórias humanas.
. . . . Para encerrar, um ótimo título que nem sequer figurou entre os indicados à categoria principal: Dúvida (Doubt, EUA, 2008). O roteiro, baseado na peça teatral homônima, é tão bom que seria uma pena contar aqui o enredo. Basta dizer que excelentes atuações e debates inéditos em uma sociedade presa sempre às mesmas discussões fazem de Dúvida um dos melhores filmes do ano. Grande coisa que não tenha ganhado nenhuma estatueta. Afinal, Oscar é Oscar, e nada mais.
Publicado originalmente na revista News – Nº 81.
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Já é Natal. As aulas acabaram e os dias de bobeira finalmente chegaram, mas vou tentar manter o blog ativo mesmo assim. Afinal, ele ainda não completou um ano de serviço e, portanto, não tem direito a férias. Mas como quem vos escreve pretende não pensar muito por dois meses, vou ir postando textos e matérias já prontas. Este sobre Todos os Homens do Presidente, por exemplo, foi feito para a cadeira de Assessoria de Imprensa I. Escrevi em cima da hora na ocasião, então, por favor, perdoem as informações jogadas de qualquer jeito e, principalmente, o final clichê. Eu até arrumaria, mas, como eu disse, os dias de bobeira finalmente chegaram.
O texto:
Episódios verídicos normalmente levam certo tempo até serem adaptados para o cinema de ficção. Produtores e diretores preferem que alguns anos transcorram entre o fato e sua versão cultural: a poeira já baixou, o pessoal já esqueceu e então o caminho fica livre para o triunfo em defesa da memória. Nada de errado em seguir essa regra, mas é necessário coragem para ser a exceção: característica perceptível em Todos os Homens do Presidente, filme que não só suscita a memória nos dias de hoje, como também serve de exemplo (sem prazo de validade) para jornalistas ao redor do mundo.
O longa-metragem, que retrata a conturbada saga verídica vivenciada por dois repórteres do Washington Post enquanto cobriam o caso Watergate, em 1972, foi lançado apenas quatro anos após o fato. Um período curto ainda mais se levarmos em conta a magnitude do escândalo: abalou toda a estrutura do segundo governo do republicano Richard Nixon e culminou com a renúncia do presidente. A audácia do produtor Walter Coblenz e do diretor Alan J. Pakula em realizar Todos os Homens do Presidente no calor da hora talvez tenha sido inspirada no próprio ímpeto dos repórteres, protagonistas da história e autores do livro que embasou o longa.
Retratados no filme como profissionais decididos, Carl Bernstein e Bob Woodward (Dustin Hoffman e Robert Redford, respectivamente) tiveram que defender a pauta perante os editores do jornal ao mesmo tempo em que apuravam informações driblando a lei do silêncio imposta pelo partido republicano aos seus membros. A persistência dos repórteres talvez tenha sido valorizada na versão cinematográfica, mas com certeza foi decisiva para o futuro daquela reportagem.
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Como já expressei algumas outras vezes aqui, sou um admirador de Woody Allen. E como todo bom fã do baixinho semi-calvo, estava ansioso para assistir ao seu novo e aclamado longa. Confesso que minha expectativa estava lá em cima e talvez por isso um pouco de decepção tenha sido inevitável, mas, mesmo assim, não posso negar que Vicky Cristina Barcelona é um grande filme.
O enredo acompanha alguns meses na vida de duas estudantes americanas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que resolvem passar as férias de verão em Barcelona. Lá elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor boa pinta – com o perdão do trocadilho – recém-saído de um casamento fracassado. Juntamente a Maria Elena (Penélope Cruz), a ex-esposa, os três formam uma espécie de quadrângulo amoroso. A trama em si não chega a ser cômica, embora a comédia perpasse todo o filme. São as situações e os diálogos arquitetados por Woody Allen que dão o ar da graça.
Além da comicidade, outras características dos grandes filmes do diretor estão presentes em Vicky Cristina Barcelona. Woody retorna com sua visão realista-exagerada dos relacionamentos amorosos, onde paixão e dúvida sempre andam de mãos dadas. E, apesar de o cineasta não dar as caras no filme, sua peculiar neurose está presente o tempo todo, revezada entre os personagens principais.
O ingrediente inédito que o filme traz para a bagagem do diretor é a sensualidade. Contando com a beleza do elenco e com a estética caliente de Barcelona, Woody não precisa mostrar mais do que 10cm² de pele para passar o seu recado. Entre os atores, quem melhor transita do sexy ao neurótico é, sem dúvida, Penélope Cruz. A atriz trouxe um pouco da vitalidade de seus papéis nos filmes de Almodóvar, mas sem perder a sutiliza de um personagem típico de Woody Allen. Uma combinação que só podia dar certo.
Publicado originalmente no jornal Pois É – Nº 22.
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James Bond é um veterano de guerra. Já enfrentou bombas atômicas, conspirações internacionais e milionários lunáticos donos de engenhocas mortais. Problemas rotineiros na vida de um agente secreto. Em seu mais recente longa, no entanto, 007 se depara com um desafio inédito: a continuação.
Eu explico. Costumeiramente os filmes de James Bond possuem tramas independentes, sem conexão com a anterior e sem deixar pontas soltas (pelo menos não de propósito). Foi seguindo essa fórmula que a série conseguiu produzir 21 episódios, sem nunca sofrer com a pressão de ter que fazer uma seqüência tão boa quanto o original. Mas algumas mudanças começaram a ocorrer em Cassino Royale, penúltimo longa do espião. As inovações – James Bond se apaixona e cogita abandonar o serviço secreto, para citar duas – conquistaram o público e fizeram do filme a maior bilheteria de todos os capítulos de 007 até hoje. Talvez por isso os roteiristas de Quantum of Solace (EUA, 2008) tenham resolvido dar continuidade à trama de Cassino Royale. O que, infelizmente, não funcionou muito bem.
O enredo do longa é mais ou menos o seguinte: investigando os eventos do filme anterior, James Bond (Daniel Craig) chega ao Haiti, onde descobre as atividades de Dominic Greene (Mathieu Amalric), um mercenário que ganha a vida depondo governos de países subdesenvolvidos. O trabalho do momento é na Bolívia, onde um ex-ditador contrata os serviços do vilão a fim de retomar o poder. Bond, então, aterrissa em solo andino para desbaratar o esquema e descobrir as verdadeiras intenções de Greene, mas não consegue parar de pensar em como vingar Vésper, sua amada morta no filme anterior.
Tramas complexas sempre foram uma característica de 007, mas em Quantum of Solace o problema é mais acentuado, já que algumas informações e personagens apresentados em Cassino Royale são dadas como velhas conhecidas do público. Além disso, o filme não conseguiu manter o alto nível em alguns aspectos que garantiram o sucesso de seu antecessor, como a boa atuação do protagonista e cenas de ação bem fundamentadas.
Os pontos fracos de Quantum of Solace, entretanto, não fazem dele um mau filme. Na minha opinião, ainda é superior à média dos demais 007. Só teve o azar de suceder justamente Cassino Royale, a obra-prima da família Bond.
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Não sei se é impressão minha, mas tenho notado que entre os meses de setembro e dezembro nada comercialmente significativo é lançado nos cinemas. É o período da entressafra de Hollywood: as produções bombásticas do verão americano já foram embora e os filmões candidatos ao Oscar ainda não estrearam. Aproveitando esse déficit de lançamentos, vou comentar um dvd.
O nome do filme é Coisa na Roda, uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre que desenterrei na videoteca da Unisinos. O longa, captado em super-8 em 1982, foi dirigido por Werner Schünemann, hoje ator global. Vale ressaltar que na década de 80 a Casa de Cinema funcionava como uma cooperativa, com uns 13 membros. Foi durante o governo Collor que a situação complicou e a produtora encolheu, se resumindo aos seis sócios que permanecem até hoje.
Voltando ao assunto, Coisa na Roda retrata a amizade de quatro jovens que dividem um apartamento em Porto Alegre no início dos anos 80. Estudantes, militantes e sem dinheiro, eles aceitam um quinto morador, já formado e um tanto desiludido ideologicamente. Em pouco tempo a presença desse semi-estranho abala a relação dos quatro amigos. Tal enredo, que poderia não resultar em nada de mais, acaba se transformando no retrato de uma época e de um ambiente, ambos extintos: as experiências e incertezas da juventude com certeza sempre vão existir, mas me parece que nunca mais terão o peso que tiveram entre as décadas de 60 e 80.
Assim como quase todo super-8, o filme possui algumas salutares deficiências técnicas. A cópia foi remasterizada antes de ser passada para dvd (a versão original já estava em frangalhos), mas permaneceram a dublagem, a fotografia lavada e as ranhuras na película que, convenhamos, têm o seu charme. A trilha sonora, mesmo equivocada na cena final, completa o clima independente do longa.
O problema para assistir a Coisa na Roda é que o dvd não foi comercializado e acredito que também não está disponível nas locadoras. Mas aqui em São Leopoldo quem estiver interessado pode entrar em contato comigo ou então recorrer ao acervo da Unisinos. Afinal, é sempre bom prestigiar o cinema gaúcho.
Publicado originalmente no jornal Pois É – N° 21.
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Um dia habitual em uma metrópole qualquer. Dentro do carro, esperando o sinal abrir, um homem fica cego. Não é uma cegueira comum, escura, mas uma cegueira branca. O homem, naturalmente, vai ao oftalmologista, que não consegue detectar o problema na visão do paciente. Ao chegar em casa, o médico também cega, assim como todas as pessoas que havia atendido naquele dia. Em pouco tempo, uma epidemia de cegueira branca assola a humanidade.
Quando José Saramago escreveu Ensaio Sobre a Cegueira, com esse enredo, queria fazer uma crítica ao modo de vida do homem moderno. A trama, aliás, é quase que apenas um pano de fundo para as instigantes reflexões do autor português. Escrito o livro, por muito tempo Saramago não quis vender os direitos de sua obra para uma adaptação cinematográfica. Temia que seu mundo de cegos pudesse acabar virando um mero filme de zumbis. Pois o receio do escritor terminou não se confirmando, já que o projeto caiu em boas mãos. O diretor Fernando Meirelles preservou em Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008) o tom humanista, focado na busca pela dignidade.
Esteticamente o filme é perfeito. A fotografia estourada não apenas dá o clima, mas é um dos mais importantes elementos da narrativa, já que passa ao espectador a sensação de “mergulho em um mar de leite” – modo como os personagens definem a tal cegueira branca. A direção de arte também é caprichada, conseguindo transformar grandes centros urbanos como São Paulo em lugares (ainda mais) deploráveis.
Mesmo assim, os cenários apocalípticos propostos por Saramago no livro me pareceram mais chocantes na versão escrita do que na filmada. Isso talvez seja decorrência do enxugamento feito por Meirelles: a primeira versão final de Ensaio Sobre a Cegueira, com quase três horas de duração, foi considerada muito forte por algumas platéias-teste. O diretor, então, reeditou o filme, cortando as cenas mais intensas. Outro pequeno problema é que, infelizmente, o longa não conseguiu transpor para o cinema toda a bagagem filosófica do livro. Mas isso, confesso, seria uma tarefa realmente muito difícil.
O que parece incomodar algumas pessoas é o fato de que a cegueira chega ao final do filme sem uma explicação. Os personagens, que não têm nomes, simplesmente se adaptam àquela realidade, não buscam saber as causas da doença. Ao meu ver isso é perfeitamente plausível, pois em Ensaio Sobre a Cegueira, livro e filme, o que importa são as conseqüências.