Como falei brevemente em um post anterior, posso dizer que tenho uma ligação com o Festival de Cinema de Gramado. Em 2007, através de uma promoção da Zero Hora, fui selecionado para fazer parte do Júri Popular do Festival. Eu e mais 11 cinéfilos de todo o país, também escolhidos através de jornais de suas cidades, decidimos o destino de dois Kikitos: melhor filme nacional e melhor filme estrangeiro, segundo o Júri Popular.
. . . . Para melhorar ainda mais a situação, durante aquela semana eu também virei “colunista” de ZH, escrevendo diariamente um textinho sobre a experiência de ser jurado. E, como prometi no tal post, agora finalmente publico aqui no blog meus escritos sobre o 35º Festival de Gramado:
1. O parágrafo com o qual ganhei a promoção. Lembrando que a proposta era escrever, em até 950 caracteres, sobre um filme brasileiro recente (recente em 2007). Falei de Saneamento Básico:
“Jorge Furtado já é um marco no cinema rio-grandense. Antes dele, a produção audiovisual gaúcha era mera coadjuvante do eixo Rio – São Paulo. Com ele, o Rio Grande do Sul se tornou um protagonista. Prova disso é seu mais novo trabalho, Saneamento Básico – O Filme. Assim como já havia feito com seus três primeiros longas, Furtado rodou essa história em solo gaúcho. Dessa vez, no entanto, subiu a serra e levou consigo mais personagens que de costume. Deu certo. O filme é consistente, praticamente não há coadjuvantes e todo o elenco compartilha de boa atuação: habilmente, as cenas de humor são equilibradas com alguns diálogos em plano-seqüência. Além disso, com um enredo que trata de principiantes tentando realizar um vídeo, Saneamento Básico se torna uma aula de roteiro. Alguns segmentos inclusive parecem ter sido pensados com esse propósito. Furtado talvez esteja querendo mais colegas de profissão”.
2. Os textos que escrevi para ZH enquanto jurado popular durante aquela semana. Eu não podia falar nada sobre os filmes, então a saída foi contar percepções banais, ou não, de um festival de cinema:
Texto de apresentação publicado no domingo, dia 12/08/07:
“Há poucos dias atrás eu assisti a uma entrevista com Dustin Hoffman e ele disse algo como ‘nesse mundo do cinema, o principal é a sorte’. Primeiro eu ri, mas agora concordo. Eu tive a tal sorte. A promoção de Zero Hora para o Júri Popular do 35º Festival de Cinema de Gramado caiu de pára-quedas na minha frente. Fiquei sabendo no último dia, escrevi o texto na corrida e devo ter enviado a resposta uns dez minutos antes do prazo final. E ganhei! Um mero estudante de jornalismo, ainda no terceiro semestre. Quem diria… Esse caminho afortunado, no entanto, talvez tenha começado mais cedo: lá na oitava série, quando um professor, por acaso, falou que anotava todos os filmes que assistia. Eu, muito original, resolvi fazer o mesmo. Decidi ser cinéfilo. E agora, na primeira vez que entro no Palácio dos Festivais, já sou jurado. Nada melhor que aprender cinema assim, do lado de dentro. Para o futuro, vamos ver o que a sorte me traz”.
Publicado na segunda, dia 13:
“Ontem cheguei a Gramado. Até aqui tudo bem, já visitei a cidade diversas vezes. Mas agora é diferente, o clima é diferente. E não estou falando dos Kikitos gigantes que decoram as ruas. São as pessoas. Volta e meia você ouve alguém gritando e correndo para abraçar um velho amigo, provavelmente de outros Festivais. Todos respiram um ar cinematográfico. E todos falam com sotaque. Eu, desde criança, e não sei porque, sempre associei aquele chiado carioca a artistas. Talvez devido às novelas. O fato é que, em Gramado, toda vez que ouço um ‘x’ ou um ’s’ prolongado olho para o lado à procura de um famoso. Por enquanto, todas as tentativas foram em vão. São apenas meros cariocas, paulistas e baianos. Anônimos, pelo menos para mim. Ainda estou na espera”.
Na terça:
“Ainda no domingo estava eu no salão de entrada do Palácio dos Festivais quando percebi uma movimentação. Fotógrafos e cinegrafistas saíram correndo, quase derrubando meu café gratuito. Havia chegado alguém. Era Walmor Chagas. Muito solícito aos repórteres, ele percorreu toda a extensão do tal tapete vermelho, desviou de um palhaço que oferecia chocolates e sumiu para dentro do cinema. Só fui ver ele novamente ontem pela manhã. Participava do debate sobre seu filme. E foi ali, naquela discussão, que eu percebi a verdadeira aura de um festival. Não é apenas uma exibição de longas e curtas metragens. E a premiação também é o de menos. O diferencial é essa oportunidade de poder conversar e comentar os filmes direto com seus realizadores. Claro que eu, como membro do júri, não falo nada. Mas dá vontade. Acho que vou voltar ano que vem só para isso”.
Na quarta:
“Na edição de segunda-feira eu comentei que ainda não havia me deparado com nenhuma celebridade. Engano meu. Já conheço pelo menos onze. O Júri Popular do Festival de Gramado pode até não ser conhecido ou reconhecido pelo grande público, mas é alvo de muitos jornalistas. Eles chegam, puxam conversa como quem não quer nada e, sutilmente, se oferecem para trocar opiniões sobre os filmes. Muito espertos. Nós jurados, no entanto, estamos sempre atentos. E somos um grupo saudavelmente diversificado. De Salvador, veio um médico. De Natal, um promotor. Melina, que é de Floripa, faz mestrado em cinema e Odelta é atriz de Garibaldi. Esses são só alguns, claro, mas compõem uma boa amostra. E o melhor é que são todos normais, nenhum cinéfilo amante de teorias semióticas como eu temia”.
Na quinta:
“Estou descobrindo o poder de um crachá. Abre muitas portas, principalmente em festas. E os eventos dos patrocinadores do Festival de Gramado são grandiosos, com todos aqueles lanchinhos chiques que são melhores de ver do que de comer. No pior dos casos, só a bebida é liberada. O engraçado nessas festas, no entanto, é que elas têm uma lógica invertida. Quase todo mundo é VIP. Os “comuns” são a minoria. E engraçado também, ou pelo menos curioso, é como o cinema brasileiro dispõe de dinheiro para eventos desse porte, mas não para produzir o básico: filmes. Hermano Penna, diretor de ‘Olho de Boi’, disse em um debate que foi preciso recorrer ao programa de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura para realizar o longa. Esse incentivo, que apóia os projetos com até 1 milhão de reais, também foi dado ao plano-seqüência e inédito ‘Ainda Orangotangos’, rodado em Porto Alegre. Pena que no Brasil não existam muito mais desses crachás abridores de portas”.
Na sexta:
“O público aqui em Gramado é estranho. No cinema tem gente que aplaude os comerciais. Outros gritam ‘Fala no microfone!’ para o premiado antes mesmo que o coitado possa se situar no palco. E volta e meia passa uma criança perdida correndo. Mas estranhos mesmos são aqueles que ficam do lado de fora, se amontoando para tentar ver quem passa no tal tapete vermelho. A impressão que tenho é que não são fãs muito convictos. Não têm personalidade. Eles (na maioria elas) fazem escândalo por qualquer passante. Basta se parecer com alguém que um dia foi figurante de novela. Pedem pra tirar foto sem saber sequer o nome da vítima. E risíveis mesmo são umas pessoinhas de cinco anos pedindo loucamente autógrafo de “Walter” Chagas e “Ingrid” Liberato. Quero só ver o que vai acontecer a partir de hoje, quando me disseram que chegam as celebridades realmente de massa. Espero que os praticantes de tietagem se contentem. E se acalmem”.
E no sábado:
“Ontem acabaram as exibições de longas-metragens aqui em Gramado. Tudo que o Júri Popular devia assistir já foi assistido e devidamente julgado. O resultado o público conhecerá hoje à noite, na cerimônia de premiação do Festival. Mas quase que as coisas não deram tão certo assim. Na quinta-feira, por exemplo, estávamos todos (os jurados) em uma van, a caminho do Palácio dos Festivais, quando a porta do carro se escancarou. Um vento frio entrou e a reação das mulheres foi magnífica. Era mais ou menos igual àquelas das pessoas dos filmes, quando um avião despressuriza. Só faltaram as máscaras caindo sobre nossas cabeças. Henrique, representante de Recife no Júri, tentou fechar a porta ao som de gritos histéricos do tipo ‘Cuidado! Você vai morrer pendurado!’ ou ‘Pára tudo que eu quero descer’. O episódio acabou quando o pobre motorista teve que parar e arrumar tudo. Andamos mais dez metros e chegamos”.
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