Nash Laila
29/06/2008, 18:02
Arquivado em: Entrevistas

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Conheci o trabalho de Nash Laila (de Medeiros Rodrigues) no Festival de Cinema de Gramado do ano passado. Atriz, ela protagonizava um dos longas em competição: Deserto Feliz, de Paulo Caldas. O filme segue a trajetória de Jéssica, uma adolescente que foge do sertão pernambucano em busca de uma vida menos sofrida, mas que cai na rede do turismo sexual. A interpretação de Nash foi assunto naquela semana em Gramado e, lembrando disso, convidei a jovem atriz de 21 anos para uma entrevista. Mesmo depois de uma confusão da Internet ela foi simpática e receptiva e, por e-mail, falou um pouco sobre a sua experiência com Deserto Feliz.

   

Como que tu te tornaste atriz: sempre foi teu sonho, ou foi meio por acaso?

Então… é um tanto clichê mas é minha história também. Quando eu era criança, falei para minha mãe que queria ser atriz, fiz pecinhas na igreja e só assim ela me levou a sério. Até mais do que eu, suponho. Depois de alguns anos, em 1999, ela me matriculou em uma oficina de interpretação.

 

Como que tu foste parar no cinema, em Deserto Feliz?

Eu comecei minha trajetória com vídeo, depois voz, corpo… até chegar no teatro, de fato, no palco, na montagem de um espetáculo. Enfim, eu estava ensaiando “Valsa nº 6″, de Nelson Rodrigues, quando uma amiga minha, também atriz, me intimou a ir fazer o teste para Deserto Feliz. Segundo ela, era um filme bacana de um diretor super premiado. Ela articulou tudo. Mandou meu currículo para a produtora, agendou o teste. Fiz o teste e na mesma semana o assistente do Paulo Caldas me ligou marcando uma reunião. Então eu fui chamada para fazer a Jéssica.

 

E quanto tu estiveste envolvida na produção, preparação do filme?

Para mim era tudo muito novo ainda. Eu nunca tinha feito cinema, nem nada realmente profissional. A experiência que eu tinha era apenas com o teatro. Quando entrei na equipe do Deserto, me atirei com todas as forças e toda vontade que eu tinha de fazer aquilo. Mesmo um pouco perdida, eu saquei o espírito de equipe que o cinema tem e que é tão intenso. Foi magnífico! Eu procurava saber de tudo um pouco. Fui tingir roupa com as meninas do figurino, comprar alguns materiais com o pessoal da produção, ficava em cima dos assistentes de direção perguntando como se faz isso e aquilo. Foi muito gostoso. Assim fui entrando no clima.

  

E o elenco, teve treinamento específico, a exemplo do desenvolvido pela Fátima Toledo?

O Paulo não achou necessário um preparador de elenco pra o Deserto. A ajuda que eu tive em construção de personagem foi mais para eu me tranqüilizar e conseguir achar um caminho. Foi um tipo de preparação psicológica, hehe. Quem fez esse trabalho comigo foi Jorge Clésio, diretor de teatro com quem eu trabalhava na época. Fiz isso e um outro exercício com outros atores, a Elane Nascimento e o João Miguel. Ele sugeriu passar um dia fazendo jogos cênicos, sentindo personagens, buscando possibilidades. Esse trabalho também foi incrível. Mas foi um dia apenas. De resto o Paulo se encarregou de fazer a gente entender bem o que ele queria e conseguiu tirar bons resultados dessa forma.

 

A pergunta clássica: como foi trabalhar com Paulo Caldas, até que ponto vocês atores tinham liberdade para criar e conduzir os personagens?

O Paulo é o diretor que eu pedi a Deus, hehe! Ele é muito generoso, conversa, ouve muito o que a gente tem a dizer e confia no elenco que ele escolhe. De tanto termos essas conversas sobre quem eram os personagens, no set ele nos deixava muito tranqüilos e assim ficávamos bem flexíveis para se, por acaso, ele precisasse mudar alguma coisa. Tivemos liberdade para criar (em cima do que ele queria) e interpretar nossos personagens. Até o texto teve palpites nossos. Enfim, foi uma relação de cumplicidade.

 

Deserto Feliz tem vários planos-seqüência. Tu vês diferença em atuar em um plano-seqüência e em cenas de cortes rápidos?

Muita. Eu que vim do teatro sinto muita diferença. Os cortes são umas das maiores diferenças entre teatro e cinema. E os planos-seqüência amenizam um pouco isso. Amo fazê-los. Acho de uma delicadeza e uma grandiosidade. Não que não sejam necessários o plano e o contra-plano, mas é que para mim, sendo uma atriz que ainda acredita na interpretação que vem de dentro pra fora, o plano-seqüência meio que ajuda a ficar mais verdadeiro. Porque não tem picote na interpretação, é tudo de uma vez.

 

Aquela cena do “estupro” (coloco entre aspas, pois sei que outras pessoas não vêem como estupro), ainda antes de Jéssica sair de casa, foi difícil de ser realizada, e filmada?

Bem, eu a fiz e o Paulo a escreveu como um estupro sim (risos). Na verdade nem foi tão difícil assim. A gente fez três takes apenas. O segredo desse tipo de cena (e de qualquer outro, na verdade) é a concentração. O trabalho com o corpo também ajuda. Eu corri muito antes de fazê-la, estava muito cansada e na hora foi só adicionar o sentimento. Nós também já havíamos ensaiado algumas vezes o movimento de cena e de câmera. Saiu rapidinho.

 

Deserto Feliz foi lançado relativamente próximo de outros filmes nacionais de temática semelhante, como Anjos do Sol e O Céu de Suely. Como, e por que, tu achas que Deserto Feliz se diferencia desses demais filmes? E como tu pensas que os temas da prostituição infantil e tráfico de mulheres, necessários num país como o Brasil, podem ser abordados pelo cinema nacional sem se tornarem repetitivos ou banais?

Acho que Deserto é diferente por causa de várias coisas. A linguagem é uma que influencia muito, a forma de falar sobre um tema tão forte de um jeito bem sutil e poético. Não que os outros filmes não sejam, mas Deserto Feliz está ali para contar uma história, sem começo e sem fim, de uma menina que não é a heroína, nem a mocinha, nem a vilã. Ou seja, de uma pessoa de verdade. Acho que essa linha que separa o filme de ficção da realidade é que é muito fininha. Por isso o torna especial. E em relação à banalidade do tema, eu acho que dentro dele existem muitas coisas acontecendo e que podem ser contadas de várias formas diferentes. Acho que a prostituição infantil também muda com o tempo, por isso se consegue falar tanto dela sem cair no clichê, além de que as cabeças dos que querem falar são diferentes, hehe. O Cláudio Assis falando de exploração sexual é bem diferente do Paulo caldas, por exemplo.

 

Independente do teu trabalho em Deserto Feliz, como é teu processo de criação? Tu vês a atuação simplesmente como ”tu fazendo tal coisa” ou crês na interpretação visceral?

Eu ainda não achei uma forma específica. E nem acho que exista.  Eu tento ouvir muito o que se quer com aquele personagem e o que ele quer. Eu sou do tipo que tem dois ouvidos e uma boca, sabe? E a partir do que ouço começo a pensar como tal personagem se comportaria em tais situações. Depois vou me moldando da forma mais natural possível. Não sou eu fazendo uma coisa. Eu nem faria se fosse eu, de fato, hehe. Eu empresto meu corpo pra dar vida aos personagens.

 

Como tu vês o cinema brasileiro hoje? Achas que ele deve se voltar aos problemas sociais do país, ou tentar se diversificar, fazer outras abordagens?

Eu acho que tem espaço pra tudo. Não apenas para os problemas sociais, mas para romances, comédias, aventuras e o escambal. O Brasil é tão grande e tem muita coisa pra se falar da nossa cultura.

  

Teus projetos seguintes. Já está envolvida em algum? É cinema, teatro, enfim…

Eu agora estou tentando estudar artes cênicas. Mas quero fazer trabalhos práticos também. Tenho em vista agora “Amor Sujo”, também do Paulo caldas. Mas quero tentar fazer teatro esse ano e quem sabe mais um filme. Longas, curtas, são todos bem vindos, hehehe.

  

Para finalizar: e o lado glamouroso do cinema? Sei que tu tens rodado meio mundo com Deserto Feliz. Qual tua percepção sobre isso? E como convive com o fato de agora ser uma celebridade?

Vixe, menino! Celebridade é coisa que está na cabeça da galera, hehehe. Essas viagens têm sido ótimas para o meu trabalho, fazer contatos, descobrir coisas, conhecer gente. É isso que eu quero. Não existe glamour no cinema para quem não procura por ele. Acho que é o meu trabalho, que eu amo, mas é igual a qualquer outro. A diferença é que quem faz, faz porque gosta, por isso é tão feliz e satisfeito com isso. Afinal, entrar numa Kombi, ir para o meio do mato, levar poeira na cara, ficar todo suado no sol quente e depois voltar na Kombi para ir dormir não é nada glamouroso, hehehe.