Quando o argentino O Segredo dos Seus Olhos foi anunciado como vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010, muita gente foi surpreendida. O favorito na disputa naquela categoria era o alemão A Fita Branca, do consagrado diretor Michael Haneke, e a vitória de um filme latino-americano (ainda havia outro na disputa: o peruano La Teta Asustada) despertou o interesse de variados públicos.
É costume dizer que a grande massa freqüentadora dos cinemas brasileiros dá preferência às produções de Hollywood e não valoriza filmes nacionais ou latino-americanos. Esse fenômeno na verdade é decorrente de um processo mais complexo. Os grandes estúdios dos Estados Unidos investem milhões em publicidade e na distribuição de seus produtos mundo afora, e as produções locais, de menor orçamento, simplesmente não têm como competir. As salas de cinema também visam o lucro e por conta disso quase sempre exibem apenas os filmes de rentabilidade garantida.
Ironicamente, às vezes a própria festa do cinema norte-americano cria brechas nesse sistema já consolidado. Muito provavelmente O Segredo dos Seus Olhos não estaria tendo a mesma repercussão se não tivesse ganhado o Oscar. São fatores como esse, não ligados diretamente à qualidade cinematográfica, que podem definir a trajetória de um filme. Quantos outros excelentes longas e curtas-metragens brasileiros ou latinos nem sequer chegaram ao conhecimento do grande público? Difícil responder.
Entretanto, é fácil encontrar em O Segredo dos Seus Olhos as razões para o sucesso. Dirigido por Juan José Campanella, o filme narra a história de Benjamin Esposito (Ricardo Darín), um oficial de justiça aposentado que tenta escrever um livro sobre um trágico crime não solucionado ocorrido em 1974. A trama mistura elementos de thriller policial, drama e até mesmo comédia, mas pode se dizer que o verdadeiro tema do filme é a memória. Os personagens estão interligados por um passado não resolvido e ao revolverem as lembranças daquela época descobrem como são definidoras de suas vidas presentes.
Também é interessante perceber a Argentina dos anos 70 retratada – e muito bem fotografada (o plano-sequência no estádio de futebol é de tirar o fôlego): agitações políticas, corrupção e, conseqüentemente, a falência do serviço público. Características que parecem ser mais bem trabalhadas pelo cinema argentino do que no brasileiro, e melhor interpretadas pelo público. A população lá parece se interessar mais pela sua política, pelos seus filmes e pela sua história. Assim como os personagens de O Segredo dos Seus Olhos revivem uma época, o próprio filme serve de memória de um país.

Eduardo,
Assisti ontem ao filme, coincidentemente pouco após ler a tua crítica. Concordo com tua análise, de que o filme é, sobretudo, sobre a memória, mais do que as tramas policial e romântica do roteiro. Os três gêneros – drama, policial e comédia – foram muito bem amarrados pelo Campanella. Ótimo filme!
Tbm concordo em gênero e número!
ADOREI muito o filme! É possível que até compre para ter em casa. É ótimo ver filmes que misturam um monte de gêneros e melhor ainda quando não se imagina o final!