
Bem, como dá para ver, o blog hibernou em pleno verão. No post anterior eu disse que ia tentar mantê-lo ativo durante as férias… não deu. Mas agora, com o ano de fato começando, tudo volta ao normal. Para então dar início a 2009 por aqui segue o texto abaixo, sobre o temido Oscar:
. . . . A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é uma grande festa para o cinema dos Estados Unidos. E uma grande ironia também. Criação de um país que se diz defensor da democracia e da liberdade, o Oscar tem um conhecido histórico de injustiças. Está certo que na maioria dos casos os vencedores fazem por merecer, mas não ganham a estatueta dourada exatamente por seus méritos. Ganham devido às grandes campanhas que os estúdios empreendem nos bastidores. Festinhas particulares, presentes para os votantes e por aí vai. Por isso que quase todo ano existe um filme franco favorito ao prêmio: ele não é descaradamente superior aos demais, ele simplesmente fez a melhor campanha.
. . . . E foi isso o que aconteceu em 2009. Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Inglaterra/França, 2008) foi um projeto feito com pouco dinheiro, na raça dos seus realizadores. Os estúdios Fox viram no filme uma luz dourada e resolveram comprar os direitos para a distribuição nos Estados Unidos. Fizeram uma grande campanha na temporada-prêmio seguindo a linha “o patinho feio que virou cisne”. Deu certo. O longa arrecadou 8 Oscars no dia 22 de fevereiro, incluindo o de melhor filme. Infelizmente, poucos deles realmente merecidos. Contando a história de um favelado indiano que inesperadamente chega à pergunta de 20 milhões de rúpias em um programa de TV, Quem quer ser um milionário? é um falso filme diferente. Tem um enredo diferente, uma estética diferente e uma narrativa diferente, mas resulta no mesmo clichê de sempre. No fundo, o filme segue a estrutura dos contos de fadas infantis, substituindo a magia por coincidências do destino.
. . . . Dentre os demais indicados ao Oscar de melhor filme, realmente não se pode dizer que houvesse uma obra-prima. Mas, na minha opinião, pelo menos dois dos concorrentes seriam mais merecedores do grande prêmio. Frost/Nixon (EUA/Inglaterra/França, 2008) acerta em cheio ao mostrar os bastidores da entrevista em que o ex-presidente americano Richard Nixon confessa os crimes cometidos durante seu mandato. As atuações de Frank Langella (deveria ter ganho como melhor ator) e de Michael Sheen, como Nixon e seu entrevistador, respectivamente, são fantásticas. Já O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008) segue uma linha mais clássica: a jornada do personagem ao longo da vida. Apesar de parecer bem original, a saga de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo acaba caindo no lugar comum. A atuação de Brad Pitt também não ajuda, mas o detalhe é que, mesmo com essas falhas, o longa é extremamente bem feito e cumpre fielmente a sua proposta, ser um filme sobre histórias humanas.
. . . . Para encerrar, um ótimo título que nem sequer figurou entre os indicados à categoria principal: Dúvida (Doubt, EUA, 2008). O roteiro, baseado na peça teatral homônima, é tão bom que seria uma pena contar aqui o enredo. Basta dizer que excelentes atuações e debates inéditos em uma sociedade presa sempre às mesmas discussões fazem de Dúvida um dos melhores filmes do ano. Grande coisa que não tenha ganhado nenhuma estatueta. Afinal, Oscar é Oscar, e nada mais.
Publicado originalmente na revista News – Nº 81.
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