Todos os homens do presidente
22/12/2008, 22:04
Arquivado em: em dvd, ou não

Já é Natal. As aulas acabaram e os dias de bobeira finalmente chegaram, mas vou tentar manter o blog ativo mesmo assim. Afinal, ele ainda não completou um ano de serviço e, portanto, não tem direito a férias. Mas como quem vos escreve pretende não pensar muito por dois meses, vou ir postando textos e matérias já prontas. Este sobre Todos os Homens do Presidente, por exemplo, foi feito para a cadeira de Assessoria de Imprensa I. Escrevi em cima da hora na ocasião, então, por favor, perdoem as informações jogadas de qualquer jeito e, principalmente, o final clichê. Eu até arrumaria, mas, como eu disse, os dias de bobeira finalmente chegaram.

O texto:

Episódios verídicos normalmente levam certo tempo até serem adaptados para o cinema de ficção. Produtores e diretores preferem que alguns anos transcorram entre o fato e sua versão cultural: a poeira já baixou, o pessoal já esqueceu e então o caminho fica livre para o triunfo em defesa da memória. Nada de errado em seguir essa regra, mas é necessário coragem para ser a exceção: característica perceptível em Todos os Homens do Presidente, filme que não só suscita a memória nos dias de hoje, como também serve de exemplo (sem prazo de validade) para jornalistas ao redor do mundo.

O longa-metragem, que retrata a conturbada saga verídica vivenciada por dois repórteres do Washington Post enquanto cobriam o caso Watergate, em 1972, foi lançado apenas quatro anos após o fato. Um período curto ainda mais se levarmos em conta a magnitude do escândalo: abalou toda a estrutura do segundo governo do republicano Richard Nixon e culminou com a renúncia do presidente. A audácia do produtor Walter Coblenz e do diretor Alan J. Pakula em realizar Todos os Homens do Presidente no calor da hora talvez tenha sido inspirada no próprio ímpeto dos repórteres, protagonistas da história e autores do livro que embasou o longa.

Retratados no filme como profissionais decididos, Carl Bernstein e Bob Woodward (Dustin Hoffman e Robert Redford, respectivamente) tiveram que defender a pauta perante os editores do jornal ao mesmo tempo em que apuravam informações driblando a lei do silêncio imposta pelo partido republicano aos seus membros. A persistência dos repórteres talvez tenha sido valorizada na versão cinematográfica, mas com certeza foi decisiva para o futuro daquela reportagem.



Vicky Cristina Barcelona
02/12/2008, 15:09
Arquivado em: em dvd, ou não

Como já expressei algumas outras vezes aqui, sou um admirador de Woody Allen. E como todo bom fã do baixinho semi-calvo, estava ansioso para assistir ao seu novo e aclamado longa. Confesso que minha expectativa estava lá em cima e talvez por isso um pouco de decepção tenha sido inevitável, mas, mesmo assim, não posso negar que Vicky Cristina Barcelona é um grande filme.

O enredo acompanha alguns meses na vida de duas estudantes americanas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que resolvem passar as férias de verão em Barcelona. Lá elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor boa pinta – com o perdão do trocadilho – recém-saído de um casamento fracassado. Juntamente a Maria Elena (Penélope Cruz), a ex-esposa, os três formam uma espécie de quadrângulo amoroso. A trama em si não chega a ser cômica, embora a comédia perpasse todo o filme. São as situações e os diálogos arquitetados por Woody Allen que dão o ar da graça.

Além da comicidade, outras características dos grandes filmes do diretor estão presentes em Vicky Cristina Barcelona. Woody retorna com sua visão realista-exagerada dos relacionamentos amorosos, onde paixão e dúvida sempre andam de mãos dadas. E, apesar de o cineasta não dar as caras no filme, sua peculiar neurose está presente o tempo todo, revezada entre os personagens principais.

O ingrediente inédito que o filme traz para a bagagem do diretor é a sensualidade. Contando com a beleza do elenco e com a estética caliente de Barcelona, Woody não precisa mostrar mais do que 10cm² de pele para passar o seu recado. Entre os atores, quem melhor transita do sexy ao neurótico é, sem dúvida, Penélope Cruz. A atriz trouxe um pouco da vitalidade de seus papéis nos filmes de Almodóvar, mas sem perder a sutiliza de um personagem típico de Woody Allen. Uma combinação que só podia dar certo.

Publicado originalmente no jornal Pois É – Nº 22.