Arquivado em: em dvd, ou não

Não sei se é impressão minha, mas tenho notado que entre os meses de setembro e dezembro nada comercialmente significativo é lançado nos cinemas. É o período da entressafra de Hollywood: as produções bombásticas do verão americano já foram embora e os filmões candidatos ao Oscar ainda não estrearam. Aproveitando esse déficit de lançamentos, vou comentar um dvd.
O nome do filme é Coisa na Roda, uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre que desenterrei na videoteca da Unisinos. O longa, captado em super-8 em 1982, foi dirigido por Werner Schünemann, hoje ator global. Vale ressaltar que na década de 80 a Casa de Cinema funcionava como uma cooperativa, com uns 13 membros. Foi durante o governo Collor que a situação complicou e a produtora encolheu, se resumindo aos seis sócios que permanecem até hoje.
Voltando ao assunto, Coisa na Roda retrata a amizade de quatro jovens que dividem um apartamento em Porto Alegre no início dos anos 80. Estudantes, militantes e sem dinheiro, eles aceitam um quinto morador, já formado e um tanto desiludido ideologicamente. Em pouco tempo a presença desse semi-estranho abala a relação dos quatro amigos. Tal enredo, que poderia não resultar em nada de mais, acaba se transformando no retrato de uma época e de um ambiente, ambos extintos: as experiências e incertezas da juventude com certeza sempre vão existir, mas me parece que nunca mais terão o peso que tiveram entre as décadas de 60 e 80.
Assim como quase todo super-8, o filme possui algumas salutares deficiências técnicas. A cópia foi remasterizada antes de ser passada para dvd (a versão original já estava em frangalhos), mas permaneceram a dublagem, a fotografia lavada e as ranhuras na película que, convenhamos, têm o seu charme. A trilha sonora, mesmo equivocada na cena final, completa o clima independente do longa.
O problema para assistir a Coisa na Roda é que o dvd não foi comercializado e acredito que também não está disponível nas locadoras. Mas aqui em São Leopoldo quem estiver interessado pode entrar em contato comigo ou então recorrer ao acervo da Unisinos. Afinal, é sempre bom prestigiar o cinema gaúcho.
Publicado originalmente no jornal Pois É – N° 21.