Ensaio Sobre a Cegueira
29/09/2008, 0:09
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Um dia habitual em uma metrópole qualquer. Dentro do carro, esperando o sinal abrir, um homem fica cego. Não é uma cegueira comum, escura, mas uma cegueira branca. O homem, naturalmente, vai ao oftalmologista, que não consegue detectar o problema na visão do paciente. Ao chegar em casa, o médico também cega, assim como todas as pessoas que havia atendido naquele dia. Em pouco tempo, uma epidemia de cegueira branca assola a humanidade.

Quando José Saramago escreveu Ensaio Sobre a Cegueira, com esse enredo, queria fazer uma crítica ao modo de vida do homem moderno. A trama, aliás, é quase que apenas um pano de fundo para as instigantes reflexões do autor português. Escrito o livro, por muito tempo Saramago não quis vender os direitos de sua obra para uma adaptação cinematográfica. Temia que seu mundo de cegos pudesse acabar virando um mero filme de zumbis. Pois o receio do escritor terminou não se confirmando, já que o projeto caiu em boas mãos. O diretor Fernando Meirelles preservou em Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008) o tom humanista, focado na busca pela dignidade.

Esteticamente o filme é perfeito. A fotografia estourada não apenas dá o clima, mas é um dos mais importantes elementos da narrativa, já que passa ao espectador a sensação de “mergulho em um mar de leite” – modo como os personagens definem a tal cegueira branca. A direção de arte também é caprichada, conseguindo transformar grandes centros urbanos como São Paulo em lugares (ainda mais) deploráveis.

Mesmo assim, os cenários apocalípticos propostos por Saramago no livro me pareceram mais chocantes na versão escrita do que na filmada. Isso talvez seja decorrência do enxugamento feito por Meirelles: a primeira versão final de Ensaio Sobre a Cegueira, com quase três horas de duração, foi considerada muito forte por algumas platéias-teste. O diretor, então, reeditou o filme, cortando as cenas mais intensas. Outro pequeno problema é que, infelizmente, o longa não conseguiu transpor para o cinema toda a bagagem filosófica do livro. Mas isso, confesso, seria uma tarefa realmente muito difícil.

O que parece incomodar algumas pessoas é o fato de que a cegueira chega ao final do filme sem uma explicação. Os personagens, que não têm nomes, simplesmente se adaptam àquela realidade, não buscam saber as causas da doença. Ao meu ver isso é perfeitamente plausível, pois em Ensaio Sobre a Cegueira, livro e filme, o que importa são as conseqüências.



Desejo e Perigo
27/09/2008, 17:25
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Os freqüentadores das salas de cinema de São Leopoldo costumam reclamar – com razão – que os filmes de qualidade chegam atrasados à terra capilé, quando chegam. Pois o fato é que a 5ª Seleção de Filmes Bourbon trouxe inéditos e bem falados títulos até nossa cidade e quase ninguém foi ver. Na sessão do filme que vou comentar aqui eu pude contar: quatro pessoas dentro da sala em um sábado à noite.

Dito isso, vamos ao que interessa. Desejo e Perigo é o mais recente trabalho do aclamado diretor taiwanês (acho que essa palavra existe) Ang Lee, que deu o que falar a dois anos atrás com O Segredo de Brokeback Mountain. Ao contrário do que o pessoal já pode estar pensando, o novo filme não tem nada de gay, bem pelo contrário. A história se concentra em uma jovem chinesa (Wei Tang), que vê seu país dominado pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Tentando arranjar uma forma de combater os invasores, ela se junta a um grupo de estudantes que planeja assassinar um colaborador do lado nipônico (Tony Leung Chiu Wai). A protagonista, então, é infiltrada como espiã dentro da casa do inimigo, mas a relação entre a jovem e seu oponente começa a variar entre o ódio e o amor. Ou, se preferir, entre o desejo e o perigo.

Com esse enredo, o filme consegue ser bem completo, mostrando vários ângulos da sociedade chinesa oprimida pelos japoneses. Aliás, nem tão oprimida assim. É interessante perceber como a guerra parecia não abalar o cotidiano das famílias mais ricas. Lembrando que, no início da década de 1940, boa parte da China ainda não era socialista.

Um bom roteiro de ficção, entretanto, só ganha vida se o elenco o sustentar. E esse é, definitivamente, o caso de Desejo e Perigo. O casal de atores que estrela o filme tem um desempenho realmente muito bom. Ela, porque transita entre a jovem inocente e a espiã em conflito. Ele, porque retrata um homem interesseiro que carrega a responsabilidade do poder nas costas. Juntos, os personagens – e os atores – protagonizam algumas cenas de sexo que, pelo o que mostram, poderiam ser rotuladas de pornô. Mas, em seu segundo filme consecutivo, Ang Lee transforma a sacanagem em arte.

Publicado originalmente no jornal Pois É – Nº 20



Os vencedores em Gramado
27/09/2008, 17:02
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O Festival de Cinema de Gramado este ano foi pragmático em relação a sua competição de longas-metragens brasileiros: laureou os melhores.  Ao contrário do que ocorrera em 2007, quando quase todos os concorrentes abocanharam algum prêmio, esta edição do Festival distribuiu os Kikitos entre apenas três filmes.  

         Juventude ( Brasil, 2008 ), na minha opinião, foi o melhor. É um filme leve, com narrativa fluente e que, de tão bom, passa num piscar de olhos. Conduzido pelo consagrado diretor Domingos Oliveira – que também faz as vezes de ator – o longa acompanha o encontro de três homens na casa dos 70 anos, amigos que há muito tempo não se viam. Além de Domingos, no elenco principal ainda estão Paulo José e Aderbal Freire Filho, diretor de teatro não muito conhecido no cinema. O longa teve alguns problemas técnicos na exibição em Gramado, mas que não chegaram a prejudicar a essência do filme: roteiro com diálogos inteligentes, ao estilo Woody Allen. Juventude ganhou os Kikitos de melhor diretor, roteiro, montagem e qualidade artística.  

         Outro filme muito bom – e comentado – foi A Festa da Menina Morta ( Brasil, 2008 ). Com a estréia do ator Matheus Nachtergaele no cargo de diretor e roteirista, o longa retrata um vilarejo no interior da Amazônia que prepara uma cerimônia religiosa. A festa cultua o vestido rasgado de uma criança que, supostamente, morreu há vinte anos atrás. Durante uma coletiva de imprensa em Gramado, Nachtergaele confessou que escreveu o personagem principal, Santinho, pensando em interpretá-lo. Mas foi a produtora do filme, Vânia Catani, quem sugeriu Daniel de Oliveira para o papel. Fizeram a escolha correta. Famoso por sua interpretação de Cazuza, o ator deu veracidade a Santinho, jovem elevado à condição de líder religioso daquela comunidade. A Festa da Menina Morta levou os Kikitos de melhor ator, fotografia, música e prêmio especial do Júri, além de ser escolhido o melhor filme brasileiro pela crítica e pelo Júri Popular. 

         O grande vencedor do Festival, entretanto, foi outro. Nome Próprio ( Brasil, 2008 ) conta a trajetória de Camila, blogueira de vida conturbada que sonha em se tornar escritora. O filme é bom, mas perde o ritmo nos minutos finais. Fica a impressão de que o diretor Murilo Salles deixou muita coisa sobrando. O que compensa é a grande atuação de Leandra Leal, que interpreta os altos e baixos da complexa protagonista. O filme ganhou os Kikitos de melhor atriz, direção de arte e ainda a estatueta de melhor longa-metragem brasileiro. Para mim foi uma escolha equivocada. Em ano de Olimpíadas, Nome Próprio seria merecedor apenas da medalha de bronze. 

Publicado originalmente na revista News – Nº 77