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OBS.: Escrevi esse texto no meio do ano passado. Relendo agora não sei como pude formar tal opinião sobre o filme. Mas foi a impressão que tive na época, então aí está:
Toda vez que vai se aproximando o fatídico dia 12 de junho – data dos apaixonados e dos deprimidos – uma avalanche de romances e suas variações invade os cinemas. Em 2007, claro, não foi diferente. O Amor Pode dar Certo tem um clima pra lá de tristonho: um homem divorciado que descobre ter um câncer terminal cai de amores por uma estudante que também está morrendo e então os dois resolvem aproveitar os últimos dias de suas vidas. Convenhamos que é de puxar o lenço!
Mas é só assistir a Totalmente Apaixonados para o ânimo voltar ao lugar. Esse aí é uma comédia romântica daquelas de roteiro tão batido que parece que foi baixado da internet. Mas é bom. Muito bom. Julianne Moore interpreta Rebecca, uma atriz meio frustrada casada com Tom, David Duchovny – eterno “aquele cara do Arquivo X” – um desempregado e dono de casa. O irmão mais novo de Rebecca é Tobey (Billy Crudup) que namora Elaine, interpretada por Maggie Gyllenhaal. Não preciso nem dizer que ao longo da história os casais brigam, traem, desbrigam, brigam de novo e que acabam juntos e felizes. Isso tá na cara.
O bom do filme é outra coisa, a sutil e hilária crônica que é feita sobre a vida a dois. Aquelas situações que todo mundo já viveu mas nem sempre tem coragem, ou oportunidade, de falar são as que arrancam as risadas lá do fundo da garganta. Aliás, os risos são tantos que chega um ponto onde você fica embalado e até uma cena de alguém pegando um táxi ou algo assim tão sem graça te faz cair na gargalhada. A atmosfera de Natal em Nova York também ajuda a elevar o espírito e, se não fosse por uma neve fajuta que fizeram com algodão e sal grosso, dava até pra entrar no clima.
No meio de tudo isso sempre surgem aquelas piadinhas insossas, mas elas não passam nem perto de tirar o bom humor do público. Ainda mais com Eva Mendes fazendo algumas aparições especiais. Assim, Totalmente Apaixonados se torna um óbvio e engraçado filme que vale a pena assistir a um, a dois, ou em grupo. Sem malícia.
Publicado originalmente no jornal Pois É – Nº 10
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Em julho do ano passado Alpha Dog chegou a São Leopoldo atrasado, ficou pouco tempo, foi embora e provavelmente quase ninguém assistiu. Um destino trágico para um filme tão bom. Quer dizer, não TÃO bom assim… Digamos que ele vale mais pelo o que retrata do que pelo que é, entende?
O roteiro de Alpha Dog – o título significa alguma coisa tipo “o cão líder da matilha” – é baseado na história verídica do traficante Jesse James Hollywood, preso aqui no Brasil em 2005. Só que no filme ele tem outro nome, Johnny Truelove. O cara, interpretado por Emile Hirsch, é um guri de família rica da Califórnia que vive em festinhas regadas a muito sexo, drogas e rock’n’roll – no caso, rap. Nas horas vagas, vende umas ervas “domesticamente”. À medida que o negócio dele vai evoluindo vão surgindo capangas, armas, inimigos e devedores. Um dos clientes pendurados é Jake Mazursky (Ben Foster), um tatuado esquentadinho parecendo o Robert DeNiro em Taxi Driver. Pois ele enrola tanto pra pagar a dívida que Truelove resolve dar um susto, seqüestrando seu irmão, Zach.
O bando, no entanto, não se dá conta do crime que cometeu e encara o rapto como farra. Até o próprio refém fica feliz da vida por ter fugido do controle ostensivo dos pais. Mas quando Truelove vê que a polícia não vai cair na história de seqüestro de mentirinha, resolve tomar decisões mais drásticas.
Essa trajetória de ascensão no crime me lembrou Scarface (e não foi à toa: em Alpha Dog um dos personagens tem um cartaz do filme em casa). Lá em 1983, Al Pacino encarnou um imigrante cubano em Miami que começou como ladrãozinho de rua e acabou como magnata do pó. Artisticamente, Scarface é ótimo, mas, como muitos outros filmes do gênero, é uma péssima influência para os adolescentes desocupados e cabeça oca da era moderna.
Mesmo assim, a cena mais intensa de Alpha Dog não é de cabeças rolando ou de sexo carnal. Pelo contrário: é o simples depoimento de Sharon Stone no papel da mãe do guri seqüestrado. Quase irreconhecível sob a maquiagem, ela surpreende com uma atuação poderosa. Daquelas de fazer cair a ficha.
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Uma sinopse oficial de Sangue Negro diria que se trata de um filme sobre o começo da exploração petrolífera nos Estados Unidos. Mas isso é fachada. É o pretexto para contar uma baita história de ódio e vingança. Daniel Plainview (numa interpretação memorável de Daniel Day-Lewis, digna do Oscar recebido) é um homem que começa como simples operário e acaba como magnata do petróleo. Sua principal característica o próprio personagem explica, em frase que dizem já estar virando bordão em Hollywood: “Tenho uma competição em mim”.
Para conduzir esse drama épico e ao mesmo tempo intimista foi chamado Paul Thomas Anderson, diretor de Magnólia e Boogie Nights – Prazer Sem Limites. PTA (como é apelidado) provou que é mestre no que faz: os momentos em que Plainview confronta seu maior rival, um jovem pastor de uma igreja recém criada, são os mais engraçados e também os de maior carga dramática. A oscarizada fotografia de Robert Elswit é outro diferencial, bem como a trilha sonora. Composta por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, tem um genial ar de suspense hitchcockiano.
Outro título com ótima trilha é Juno. Mas essa não tem nada de suspense, muito pelo contrário. São músicas simples, quase infantis, mas bem feitas. Aliás, o filme todo é assim. A comédia sobre uma adolescente de dezesseis anos que engravida do melhor amigo e resolve doar o bebê à adoção prova que os votantes do Oscar estão se rendendo aos filmes independentes: ganhou o prêmio de roteiro original, além de indicações a melhor filme, atriz e direção. E o curioso é que Juno, longe das fórmulas blockbusters, foi o único dos cinco indicados a arrecadar mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias.
Publicado originalmente no jornal Pois É – Nº 14
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As décadas de 80 e 90 foram o auge dos filmes de ação. Carros voavam e explodiam em séries como Duro de Matar e Máquina Mortífera. Isso sem falar nos exércitos-de-um-homem-só “interpretados” por Arnold Schwarzenegger e Silvester Stallone. O aparente fim dessa mortandade hollywoodiana veio em 2001, quando, em 11 de setembro, os Estados Unidos sentiram na pele aquilo que produziam nas telas.
Quem retomou o gênero, adicionando alguns elementos de suspense, foi a franquia Bourne. A Identidade Bourne (The Bourne Identity, EUA, 2002) traz Matt Damon no papel de um homem sem memória que, ao descobrir ser um ex-agente descartado pela CIA, passa a ser perseguido por assassinos da Agência. Entre uma correria e outra, Bourne conhece Marie (Franka Potente), que se torna sua esposa no final da história.
Não contentes com o sucesso comercial do filme, os produtores decidiram fazer uma seqüência. A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, EUA, 2004), começa com o protagonista em uma feliz vida matrimonial na Índia. Isso até Marie ser morta por engano (o alvo era Bourne, claro). Ele então sai em busca de vingança e a partir daí a trama vira uma repetição da anterior.
Mas como a moda agora é trilogia, a série precisava de mais um capítulo. E a palavra chave teria de ser inovação. Como continuar uma história que já podia ter acabado duas vezes? A solução encontrada pelo diretor Paul Greengrass e seus roteiristas foi, no mínimo, interessante. O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, EUA, 2007) retoma parte dos acontecimentos do segundo episódio mostrando-os por outro ângulo. Além disso, dessa vez Jason Bourne resolve ir a fundo em sua investigação: quer descobrir quem realmente é e o que foi feito com ele, nem que para isso precise invadir o quartel general da CIA.
O ponto em comum entre os três filmes – além de Damon e algumas das melhores cenas de ação do cinema – talvez seja o roteiro confuso. Vários personagens ficam soltos na história, sem mostrar a que vieram. Até mesmo em relação ao protagonista às vezes nos perguntamos coisas do tipo “mas e agora, onde ele está indo?”. A edição do filme, apesar de ser caprichada, também não ajuda. Cortes muito rápidos aliados a uma filmagem com câmera na mão são dignos de provocar enjôos nos menos preparados.
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O Ultimato…, entretanto, é superior aos seus antecessores. No final tudo se encaixa e você sai semi-eufórico da sala de exibição. Para os fãs da série resta esperar que estúdio, diretor, astros e estrelas se acertem para mais uma saga do agente, agora já não tão sem memória assim.
Publicado originalmente na revista News – Nº 67
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O Brasil não é conhecido por seus filmes de ação. Pelo menos não era até agosto de 2007, quando uma cópia não finalizada de Tropa de Elite (Brasil, 2007) caiu nas mãos da pirataria. Em pouco tempo o filme virou fenômeno de vendas em camelôs e de downloads na Internet, com cerca de 40 mil acessos por dia. Ainda assim, foi sucesso nos cinemas. Somente no eixo Rio – São Paulo conseguiu 178 mil expectadores no fim de semana de estréia e deve fechar outubro com mais de um milhão e meio de ingressos vendidos em todo o país.
Tanto público tem suas razões. Tropa de Elite é o mais realista filme nacional já feito. Sem pudor nem piedade, escancara a corrupção na polícia militar do Rio de Janeiro e as atrocidades praticadas pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Incrimina o narcotráfico e não poupa a burguesia consumidora de drogas. O filme atira para todos os lados, acertando cada um em seu ponto fraco. Mérito do roteiro escrito por Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e pelo diretor José Padilha. Grande parte do realismo de Tropa de Elite também se deve à improvisação dos atores, uma vez que muitas cenas propositalmente não possuíam diálogos ou marcações pré-definidas.
Wagner Moura é um destaque à parte. Ganhando espaço no cinema desde Deus É Brasileiro (2003), o ator chega ao auge no papel de Capitão Nascimento, um nervoso comandante do BOPE que pretende deixar a corporação para se dedicar à família. O elenco na verdade teve sorte de poder participar do projeto, já que Tropa de Elite inicialmente seria um documentário. A idéia de realizar um filme sobre a polícia carioca é antiga. Começou a tomar forma na mente de José Padilha ainda em 2002, enquanto filmava Ônibus 174, retrato documental do trágico seqüestro ocorrido em junho de 2000 no Rio de Janeiro. O episódio, aliás, atualmente está sendo transformado em ficção por Bruno Barreto.
Sucesso de público e crítica, Tropa de Elite era considerado o favorito para representar o Brasil no Oscar 2008. Não foi o que aconteceu. O Ministério da Cultura indicou O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil, 2006) para tentar conseguir uma das cinco vagas da categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Apesar de muita gente considerar a escolha equivocada, O Ano… é também um belo filme. E aborda temas que normalmente atraem a simpatia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, como infância e judaísmo.
Publicado originalmente na revista News – Nº 68
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O diretor americano Robert Rodriguez possui uma carreira bastante peculiar. Seu primeiro longa-metragem, El Mariachi, foi produzido de modo totalmente independente, quase artesanal. Para não ultrapassar o orçamento de oito mil dólares, o então jovem cineasta pôs família e vizinhos a atuar, usou uma cadeira de rodas nos movimentos de câmera e desempenhou sozinho todas as funções técnicas.
Isso em 1992. De lá para cá, Rodriguez entrou para a indústria hollywoodiana e rodou duas continuações para seu mariachi. Dirigiu Um Drink no Inferno, criou estranhos filmes infantis como As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl, participou de Sin City – A Cidade do Pecado e, agora, resolveu fazer um filme de zumbis.
Planeta Terror (Planet Terror, EUA, 2007) começa com o vazamento de um gás que transforma pessoas em mortos vivos numa interiorana cidade do Texas. Na tentativa de combater o exército de moribundos surge El Wray (Freddy Rodriguez), que acaba liderando um bizarro grupo de sobreviventes rumo a salvação. Entretanto, a personagem mais interessante do filme é com certeza Cherry Darling. Interpretada por Rose McGowan, ela é uma dançarina de boate que, após ter uma das pernas devorada pelos zumbis, implanta uma metralhadora no lugar e parte para a vingança.
Nos Estados Unidos, Planeta Terror faz parte de um projeto maior. Foi lançado acoplado a À Prova de Morte (Death Proof, EUA, 2007), novo filme de Quentin Tarantino. Juntos, os dois longas-metragens ganharam o título de Grindhouse. O objetivo dos diretores era produzir algo que homenageasse os filmes de terror de baixo orçamento que assistiam na infância, com muitos efeitos especiais mal feitos. Robert Rodriguez levou isso bem a sério. Planeta Terror é exatamente uma daquelas produções sem roteiro, recheada de sangue e corpos mutilados.
Ainda vale ressaltar o divertido trailer fictício que precede Planeta Terror. Machete acaba se saindo melhor que o próprio filme e pode ganhar vida em breve. Antes, no entanto, estréia À Prova de Morte, que deve chegar aos cinemas brasileiros em março de 2008.
Publicado originalmente na revista News - Nº 69
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Um veterano da Guerra do Vietnã está caçando. No meio do deserto texano, se depara com a cena de um crime: corpos, armas e drogas abandonadas. Mais adiante, acha uma maleta com dois milhões de dólares e não resiste à tentação. Logo passa a ser perseguido por um assassino sanguinário, que não medirá esforços para reaver o dinheiro e eliminar aquele que o roubou, enquanto um policial à beira da aposentadoria tenta pôr fim à trilha de sangue.
Com um enredo desses, Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007) poderia facilmente se tornar um filme B. Mas o que acontece, na realidade, é o contrário. Adaptação de novela escrita por Cormac McCarthy, o texto dos irmãos, roteiristas e diretores Ethan e Joel Coen é profundo. Sua abrangência vai além das situações envolvendo os personagens e acaba se tornando, talvez até, global. Onde os Fracos… pode ser visto como uma encenação da ambição humana, e como isso nos faz tomar decisões estúpidas. Ou sobre o mundo, desenfreado e violento, que não conseguimos parar e muito menos entender.
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São várias as abordagens possíveis, e é o elenco quem as sustenta. Josh Brolin dá vida e veemência ao ex-combatente que descobre o dinheiro, quase nos fazendo crer que suas escolhas são corretas. Javier Bardem, no papel do matador psicopata, é estupendo do começo ao fim. Sua interpretação caminha em cima de uma tênue linha que separa loucura e equilíbrio. Tommy Lee Jones encarna com naturalidade o nostálgico xerife, vértice racional do trio de personagens. Mas um homem fraco que, nos dias de hoje, não tem vez.
O filme ainda possui belas imagens, essenciais para criar o clima certo. Roger Deakins, diretor de fotografia de vários outros trabalhos dos irmãos Coen, sabe conduzir a câmera com maestria em ambientes fechados e ainda mais nos planos abertos. Isso, adicionado a doses adequadas de silêncio, resulta em um western de suspense, moderno, reinventado e da melhor qualidade.
Publicado originalmente na revista News – Nº 71